sábado, 12 de outubro de 2013

Detecção de Mentiras - Introdução


O homem sentou-se estoicamente numa das extremidades da mesa, elaborando cuidadosamente suas respostas às perguntas da agente do FBI. Ele não era considerado um dos principais suspeitos no caso de assassinato: seu álibi era crível e ele parecia sincero. No entanto, o agente decidiu pressioná-lo apesar disso. Com o consentimento do suspeito, ele fez uma série de perguntas sobre a arma do crime:

"Se você tivesse cometido esse crime, teria usado uma pistola?"
"Se você tivesse cometido esse crime, teria usado uma faca?"
"Se você tivesse cometido esse crime, teria usado um picador de gelo?"
"Se você tivesse cometido esse crime, teria usado um martelo?"



Uma das armas, o picador de gelo, foi comprovadamente utilizada na
prática do crime. Apesar disso, apenas a polícia tinha posse dessa informação. Assim, somente o assassino poderia saber qual a verdadeira arma utilizada no crime.
Enquanto o agente do FBI listava as possíveis armas utilizadas, ele observava o suspeito cuidadosamente. Quando o picador de gelo foi mencionado, suas pálpebras rapidamente se baixaram e permaneceram baixas até que a próxima arma fosse mencionada. Imediatamente, o agente entendeu o significado daquele movimento de palpebras: o interrogado acabara de se tornar o principal suspeito do homicídio. Após mais algumas perguntas, o suspeito acabou confessando o crime. 



         Existem vários aplicações para os estudos envolvendo linguagem corporal. No entanto, dentre todos esses estudos, um se destaca: a detecção de mentiras. Por ser um tema que atrai o interesse popular, ele também está cercado de mitos. De todos esses mitos, o mais comum provavelmente é o de que as pessoas supostamente quebram contato visual quando mentem. Na verdade, as pessoas quebram contato visual o tempo todo e isso não possui qualquer relação com a mentira. Aliás, esse mito da quebra de contato ocular é tão arraigado em nossa cultura que ele gera a situação oposta: quando mentem, as pessoas costumam forçar o olhar e evitar a quebra. Assim, uma pessoa que estranhamente mantém contato visual o tempo todo provavelmente está se baseando no mito para mentir melhor.
            Existem três maneiras de se identificar mentiras: analisar a linguagem não-verbal, a linguagem verbal e medindo as pequenas respostas fisiológicas, como aumento da pressão arterial, freqüência cardíaca, suor das palmas das mãos ou até mesmo a dilatação da pupila. Ainda que tenhamos três técnicas distintas para a identificação de mentiras, nenhuma delas funciona de forma isolada. Por exemplo, você já deve ter ouvido falar do polígrafo – também conhecido como detector de mentiras. Esse aparelho é o responsável em identificar as pequenas mudanças fisiológicas durante algum interrogatório. Ainda que essas mudanças identificadas pelo polígrafo sejam importantes durante a identificação de mentiras, elas também poderiam ser espontaneamente produzidas por um suspeito que está nervoso ou ansioso devido a razões completamente inocentes. Assim, a leitura do polígrafo deve, portanto, ser combinada com outras técnicas como a análise do comportamento verbal e não-verbal.
            Durante a mentira, existem três processos que costumam ser desencadeados inconscientemente. Os três processos são os seguintes:

  • ·             Processos emocionais.
  •         Processos de complexidade de conteúdo.
  •                 Processos de tentativa de controle.

            Processos emocionais referem-se às emoções que o indivíduo vivencia durante a mentira. As emoções mais comuns experimentadas por um mentiroso são culpa, medo e excitação. Algumas vezes, nossas mentiras contrariam nossos princípios morais. Por exemplo, suponha que você esteja querendo faltar em seu serviço e decide inventar alguma doença. Ainda que essa mentira lhe traga benefícios, é provável que você experimente uma sensação de culpa após mentir.
            A sensação de medo também é bastante comum após o ato de mentir. Ela surge principalmente quando a punição pela descoberta da mentira é muito alta. Qualquer pessoa que já tenha colado em alguma prova no colégio sabe o quanto pode ser amedrontador a prática de se trapacear em provas.
            Finalmente, temos a sensação de excitação. Ela costuma surgir quando o objetivo da mentira é simplesmente divertir-se. Por exemplo, suponha que você tenha decidido realizar algum trote telefônico para algum amigo. Enquanto você mente, provavelmente você terá uma sensação de excitação. Algumas pessoas, também conhecidas como mentirosos compulsivos sentem esse tipo de excitação com qualquer mentira – motivo pelo qual mentem tanto, mesmo quando não têm nenhum ganho aparente com a mentira.        Processos de complexidade dos conteúdos vêm do fato de que a mentira pode ser uma tarefa que exige muito da nossa cognição. Todos nós já percebemos o quanto torna-se difícil manter uma mentira quando somos questionados mais e mais sobre determinada questão. Igualmente, quando somos tomados de surpresa, geralmente é muito difícil mentir.
            Os processos de tentativa de controle são aqueles que realizamos para tentar esconder os sinais do ato de mentir. Em outras palavras, nós tentamos nos comportar normalmente, e isso acaba gerando um comportamento completamente anormal. Um exemplo disso seriam as pessoas que, ao mentir, buscam manter o contato ocular de maneira ininterrupta. Você provavelmente já ouviu alguém dizer algo do tipo: “sei exatamente quando meu marido está mentindo”. Nesse caso, a esposa consegue identificar o comportamento anormal decorrente de tentativas de controle.
            Em breve, veremos alguns exemplos de tipos  de comportamento que costumam denunciar as mentiras. No entanto, é importante ressaltar que conhecer os padrões de comportamento do próprio indivíduo é ainda mais importante do que memorizar padrões comuns a várias pessoas. Por exemplo, suponha que seu melhor amigo costuma ser alguém muito calmo. Nesse caso, a afobação poderia ser um sinal de que ele está mentindo. Nas próximas postagens, indicarei algumas dicas para a identificação de uma linha padrão de comportamento.

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2 comentários:

Fernando Pires disse...

Realmente fantástico! Ótimo tema para o próximo livro. Principalmente para os fãs de Lie to Me. Parabéns Alberto.

Alberto Dell'Isola disse...

Fernando, fico feliz que esteja gostando! Visite nosso blog diariamente e veja quais tópicos serão abordados no Mentes Fantásticas Abraços!

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