domingo, 14 de fevereiro de 2010

Criando memórias falsas - Parte 2/4


Uma coisa é mudar um detalhe ou dois numa memória intacta, mas outra totalmente diferente é implantar uma memória falsa de um evento que nunca aconteceu. Para estudar a memória falsa, eu e meus estudantes tivemos de achar um modo de implantar uma pseudomemória que não causasse em nossos participantes tensão emocional imprópria, tanto no processo de criá-la quanto na revelação de que eles tinham sido enganados intencionalmente. Nós quisemos ainda tentar implantar uma memória que seria pelo menos ligeiramente traumática se a experiência tivesse ocorrido de fato.

Eu e minha parceira de pesquisa, Jacqueline E. Pickrell, concordamos em tentar implantar uma memória específica de estar perdido em um shopping center ou em uma grande loja de departamentos ao redor dos cinco anos. Aqui está como fizemos isto. Nós perguntamos para nossos participantes, 24 indivíduos dos 18 aos 53 anos, para tentarem se lembrar de eventos de infância que tinham sido contados a nós por um pai, um irmão mais velho ou outro parente próximo. Nós preparamos uma brochura para cada participante contendo estórias de um parágrafo sobre três eventos que haviam acontecido de fato a ele ou a ela e um que não havia. Nós construímos o falso evento sobre um possível passeio ao shopping usando informação provida por um parente, o qual verificou também se o participante não havia estado, de fato, perdido aos cinco anos. O enredo de “perdido no shopping” incluiu os seguintes elementos: perdido durante um período prolongado, choro, ajuda e consolo por uma mulher idosa e, finalmente, a reunião com a família.

Depois de ler cada história da brochura, os participantes escreveram sobre o que eles se lembravam do evento. Se eles não se lembrassem dele, eram instruídos a escrever “eu não me lembro disto”. Em duas entrevistas seguidas, nós falamos aos participantes que estávamos interessados em examinar quão detalhadamente eles podiam se lembrar e comparar as recordações deles com as dos seus parentes. Os parágrafos sobre o evento não foram lidos literalmente a eles, em vez disso foram fornecidos trechos para sugerir a lembrança. Os participantes recordaram aproximadamente 49 dos 72 eventos verdadeiros (68%) logo depois da leitura inicial da brochura e também em cada uma das duas entrevistas seguidas. Depois de lerem a brochura, sete dos 24 participantes (29%) lembraram-se tanto parcialmente como totalmente do falso evento construído para eles, e nas duas entrevistas seguidas seis participantes (25%) continuaram afirmando que eles se lembravam do evento fictício. Estatisticamente, havia algumas diferenças entre as verdadeiras e as falsas recordações: participantes usaram mais palavras para descrever as verdadeiras recordações, e eles avaliaram as verdadeiras recordações como estando um pouco mais claras. Mas se um espectador fosse observar muitos de nossos participantes descreverem um evento, seria realmente difícil para ele dizer se a estória era uma recordação verdadeira ou falsa. Claro que estar perdido, por mais assustador, não é o mesmo que ser molestado. Mas o estudo de “perdido no shopping” não é sobre experiências reais de estar perdido; é sobre implantar falsas memórias de estar perdido. O modelo mostra um modo de instilar falsas recordações e dá um passo em direção ao entendimento de como isto poderia acontecer no mundo real. Além disso, o estudo fornece evidência de que as pessoas podem ser conduzidas a se lembrarem do seu passado de modos diferentes, e elas podem até mesmo ser persuadidas a se “lembrar” de eventos completos que nunca aconteceram.

Estudos em outros laboratórios usando um procedimento experimental semelhante produziram resultados análogos. Por exemplo, Ira Hyman, Troy H. Husband e F. James Billing da Western Washington University pediram para estudantes de faculdade que recordassem experiências de infância que haviam sido contadas pelos seus pais. Os pesquisadores disseram aos estudantes que o estudo era a respeito de como as pessoas se lembram das mesmas experiências de modo diferente. Além de eventos reais reportados pelos pais, foi dado a cada participante um evento falso, seja uma hospitalização à noite devido a uma febre alta e a uma possível infecção de ouvido, ou uma festa de aniversário com pizza e palhaço que supostamente aconteceram aos cinco anos. Os pais confirmaram que nenhum desses eventos ocorreu de verdade.

Hyman descobriu que os estudantes recordaram completa ou parcialmente 84% dos eventos verdadeiros na primeira entrevista e 88% na segunda entrevista. Nenhum dos participantes recordou o evento falso durante a primeira entrevista, mas 20% disseram na segunda entrevista que se lembravam de algo sobre o evento falso. Um participante que foi exposto à história da hospitalização de emergência mais tarde se lembrou de um médico, de uma enfermeira e de um amigo da igreja que veio visitá-lo no hospital. Em um outro estudo Hyman apresentou, junto com eventos verdadeiros, diferentes eventos falsos, como derramar acidentalmente uma tigela de ponche nos pais da noiva numa recepção de casamento ou ter que abandonar um supermercado quando o sistema de irrigação contra fogo ativou-se acidentalmente. Novamente, nenhum dos participantes recordou o falso evento durante a primeira entrevista, mas 18 % se lembraram de algo a respeito na segunda entrevista. Por exemplo, durante a primeira entrevista, um participante, quando perguntado a respeito do casamento fictício, declarou: “eu não tenho nenhuma ideia. Eu nunca ouvi isso antes”. Na segunda entrevista, o participante disse: “era um casamento ao ar livre, e eu acho que estávamos correndo e derrubamos alguma coisa como uma tigela de ponche ou algo parecido e fizemos uma grande bagunça e, é claro, fomos repreendidos por isto”.

Elizabeth F. Loftus
Fonte: http://ateus.net/artigos/miscelanea/criando-memorias-falsas/

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